Documentário desvenda a genialidade, loucura e criatividade do eterno “mutante” Arnaldo Baptista

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Arnaldo Baptista, entre pincéis e telas

Texto e entrevista de Tanara de Araújo

Fotos de Canal Brasil/Divulgação

Quem diabos é Arnaldo Baptista? Gênio. Visionário. Louco. Mito. Artista. Todas absolutamente corretas, as respostas são esmiuçadas em Lóki, primeiro longa de Paulo Henrique Fontenelle, em cartaz nos cinemas do país. Premiado como melhor documentário no Festival de Miami deste ano, o filme não é apenas brilhante por trazer à tona a rica trajetória do eterno líder dos Mutantes. É também meritório por equilibrar a narrativa para leigos e iniciados — nada excessivamente didático, nem específico em demasia.

O ponto de partida é um recorte da vida pacata que atualmente Arnaldo leva na cidade mineira de Juiz de Fora, ao lado da esposa Lucinha. Em tom confessional, o músico destrincha histórias e sentimentos enquanto se dedica à pintura de uma tela, sua outra paixão artística — não tão desenvolvida quanto a música, mas simbolicamente interessante. Passado o prólogo, o roteiro de Fontenelle desdobra-se em três atos: a ascensão (Mutantes), a queda (drogas e depressão) e a redenção (reconhecimento da obra).

A primeira parte é, inevitavelmente, a mais divertida. É o retrato da inventividade rebelde de Arnaldo, Sérgio e Rita no auge da juventude e da inspiração. É o capítulo da compreensão da importância dos Mutantes em um país sem tradição roqueira em meio à ditadura dos anos 60. É o diário do amor profundo de Arnaldo por Rita e a explicação dos termos gênio e visionário. Não é necessária a carteirinha de fã para se emocionar com os registros do trio nessa época. Um dos mais tocantes é a entrevista nos bastidores do festival de 1967, no qual a banda acompanhou Gil em “Domingo no Parque”. Pueril, Arnaldo descreve a experiência como “muito legal”.

Além de uma infinidade de material de arquivo e entrevistas com o próprio Arnaldo Baptista, Lóki é recheado de declarações de amigos, jornalistas e artistas. De um elenco que vai do irmão Sérgio Dias ao fã Sean Lennon, pipocam histórias pessoais, lembranças engraçadas e tristes, análises, pedidos de desculpas e, óbvio, agradecimentos e elogios. Com um casamento perfeito entre imagens e depoimentos, a montagem perspicaz de Fontenelle deu-se ao luxo de descartar a (quase sempre) enfadonha figura do narrador.

Ainda que uma importante peça-chave da vida e obra de Arnaldo, Rita Lee optou por manter-se em silêncio – assunto que provocou ligeira polêmica. A falta de seu testemunho, porém, não compromete o fluxo narrativo, muito menos o resultado final. Pelo contrário. Com aparições reservadas a imagens antigas (cedidas por ela sem problemas), Rita é encaixada ao contexto de modo doce e afetuoso. Exatamente como permanece na memória de Arnaldo.

Queda e redenção

A partir da menção às drogas lisérgicas, o filme sutilmente muda o tom. Com edição mais lenta e narrações mais densas, a alegria é substituída por sombras. Ladeira abaixo, segue-se a dura separação de Rita e a derrocada dos Mutantes. Em um fiapo de luz — que expande o significado de gênio e insere o de louco — Arnaldo concebe o álbum que dá título ao filme. Embora tido como obra-prima, o conteúdo é o esboço de problemas futuros ligados à depressão.

Orquestrada pela fiel Lucinha, a recuperação marca a etapa final de Lóki, que volta a ter um ritmo mais ágil e comentários mais positivos. Após longo ostracismo, Arnaldo exorciza velhos fantasmas com o retorno dos Mutantes (mesmo com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee). Com belas imagens de shows lotados, beirando à catarse em Londres e São Paulo, e fãs espalhados pelo mundo, o momento é de prestígio. O ciclo fecha-se com o entendimento do mito.

É certo que a vida de Arnaldo Baptista é um roteiro de cinema nascido pronto. Sucesso, amor, obstáculos e final feliz. Fazer a fórmula dar certo, seja em documentário ou ficção, são outros quinhentos. É preciso, entre demais critérios, fazer escolhas técnicas acertadas e sensibilidade para administrar o conteúdo a diferentes públicos. Em sua estreia, Paulo Henrique Fontenelle foi bastante feliz não só nesses pontos. Acima da elucidação de qualquer conceito, Lóki é um sólido mosaico sobre o homem à frente do artista, do visionário, do louco e do gênio.

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Gênio, louco, visionário, mito e artista

ENTREVISTA – PAULO HENRIQUE FONTENELLE

“O rebelde entre os rebeldes”

Você pesquisou, roteirizou, dirigiu e montou as quase duas horas de Lóki. Ao assisti-lo, fica evidente que você lidou com um material bastante extenso. Como foi o processo de buscar, separar e decidir o que iria para a tela?

Foram quase quatro anos de trabalho intenso. Começamos com um programa de meia hora em 2005, que desencadeou o projeto do longa, e iniciamos as filmagens em 2006 com o show de Londres. Durante todo esse tempo, corremos atrás de todas as pessoas que fizeram parte de maneira significativa na vida do Arnaldo, seja para dar entrevistas ou contribuir com materiais. Acompanhamos o Arnaldo no seu dia-a-dia, filmando a pintura do quadro e a turnê com os Mutantes. Também percorremos todas as emissoras de TV e cinemateca atrás de imagens de arquivo. No final, tínhamos reunidos mais de 500 horas de imagens. E aí começou o quebra-cabeça da edição. Montei um primeiro corte de duas horas e quarenta minutos, que já estava ótimo. Foi duro ter que cortar quase um terço do filme, mas acho que o que ficou é o fundamental para contar a história desse grande artista.

Além dos materiais de arquivo e das intervenções do próprio Arnaldo, há os depoimentos de várias pessoas ligadas diretamente a ele ou não. Algumas escolhas são óbvias (Liminha, Dinho, Sérgio Dias) mas há nomes interessantes como Lobão e Devendra Banhart. Como foi a escolha desse elenco?

Buscamos praticamente todas as pessoas que de alguma maneira fizeram parte da vida do Arnaldo, desde amigos de infância a parceiros musicais. Lobão participou bastante da vida do Arnaldo. Eles quiseram montar um grupo juntos no final dos anos 70 e recentemente ele foi uma das pessoas que lançaram o disco Let It Bed, através de sua revista OutraCoisa. O filme ainda abre espaço para fãs ilustres do Arnaldo como Sean Lennon e o Devendra, que nós conhecemos quando fizemos nossas primeiras gravações em Londres.

Como foi a questão da recusa da Rita Lee?

Tentamos várias vezes entrar em contato com Rita Lee, mas sempre recebíamos a resposta, através de sua assessoria de imprensa, de que esse é um assunto que ela não gostaria de falar. É algo que devemos respeitar. Mas apesar dela não ter dado entrevistas, a Rita está presente no filme o tempo todo da maneira mais bonita possível através de imagens de arquivo. É a Rita Lee pela qual o Arnaldo se apaixonou.

Quais as outras dificuldades que você enfrentou para tocar o projeto?

A maior de todas era estar fazendo um filme tão complexo com um orçamento e uma equipe mínima. Éramos, durante a produção, basicamente três pessoas: eu, o André Saddy (produtor executivo) e a Isabella Monteiro (diretora de produção) nos revezando nas mais diversas funções, dedicando fins-de-semana, férias com uma paixão incrível. Essa paixão foi o diferencial que fez a gente superar todas as dificuldades. Como o Paulo Mendonça, diretor geral do Canal Brasil, sempre fala, esse é um filme amador no melhor sentido da palavra. Um filme feito por pessoas que amam aquilo que fazem.

Lóki apresenta claramente três atos: alegria dos Mutantes, a obscuridade do período da depressão e a esperança advinda do reconhecimento da obra. Isso foi fruto do roteiro ou da montagem?

Quando eu comecei a rodar o filme, tinha uma ideia bem clara do que eu queria contar. A vida do Arnaldo por si só já é um história que daria um ótimo filme de ficção. Mas, obviamente, as coisas foram acontecendo no meio do caminho e o filme foi se modificando. Quando comecei o projeto, pretendia acabar o filme mostrando como o Arnaldo vivia esquecido em Juiz de Fora. Mas a primeira coisa que aconteceu quando iniciamos o projeto foi a reunião dos Mutantes em Londres. Achei que ali tínhamos o final perfeito. Alguns meses depois, teve o show do Ipiranga para 80 mil pessoas, fechando com chave de ouro essa trajetória. Foi um filme que foi se modificando com os acontecimentos.

Como foi a recepção do Arnaldo em relação ao material finalizado?

A primeira vez que ele viu foi em uma sessão fechada na sala do Canal Brasil. Pude perceber sua emoção no final da exibição. Ele diz que o filme conseguiu capturar a sua alma e que, a partir de agora, ele será sempre lembrado como “o rebelde entre os rebeldes”.

E por que Arnaldo Batista?

Tudo começou com um programa de televisão que fizemos em 2005. Na época, eu quase nada sabia sobre o Arnaldo. Durante a feitura do programa, fui lendo tudo e ouvindo tudo que era possível sobre o Arnaldo e ficando cada vez mais fascinado com sua história de vida e com a beleza de sua obra. Ao término da edição, ficou em mim uma frustração muito grande em ter que resumir uma vida tão rica de acontecimentos em meia hora. Mais do que isso: ficou a indignação de ver como uma pessoa tão importante para a nossa cultura vivia tão esquecida e com seu valor não reconhecido. Acho que esse filme faz justiça ao talento e a real importância do Arnaldo na nossa música e creio que a partir de agora, Arnaldo Baptista jamais será esquecido.

[Paulo Cruz]

Uma resposta para “Documentário desvenda a genialidade, loucura e criatividade do eterno “mutante” Arnaldo Baptista

  1. Lindo o seu documentario. Não consigo parar de pensar nele . Parabens pela lembrança do Arnaldo e sua linda reviravolta, exemplo para todos.

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