O Freakfolk no Cinema

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Eternamente Crianças (Eternal Children, David Kleijwegt, 2006) é um documentário sobre a cena que então surgia em Nova York nos meiados da primeira década do século XXI. A tal cena, é o que foi instantaneamente cunhado como Freak-folk (pra alguns o nome foi “New American Folk”) – tal cena pode ser bem moldada para desconhecidos com a coletânica Golden Apples of The Sun, onde grande parte das bandas participam, inclusive os artistas contemplados no documentário, Devendra Banhart, CocoRosie, Anthony and the Johnsons e Vashti Bunyan. Outro bem presente no documentário é o músico William Basinski e suas Desintegration Loop Tapes.

Fruto de um senso de comunidade e comunhão, essas pessoas, distintas uma das outras, compartilham suas músicas e idéias. É muito dificil criar uma união musical entre os artistas, até mesmo pessoal. Basinki é praticamente um intelectual da música, Devendra um hippie, CocoRosie duas irmãs que se comportam quase como crianças (gostam de se ver assim de quaquer forma), Anthony é um artista no sentido mais pleno da palavra, Vashti é uma ex-hippie da década de 70 que é chamada de “matriarca” do movimento.

O filme tem a grande vantagem de não entrar no mérito de se aquelas pessoas são conscientemente um grupo de pessoas que se identificam musicalmente ou não. Na verdade, o que os une é justamente como diz uma das irmãs do CocoRosie, um certo sentido de comunidade que era presente na vida daquelas pessoas – dão até um lugar onde teria existido tal sentimento, em um show de Anthony. O que os parece unir na verdade é uma amizade e uma generosidade entre as pessoas – coisa que Vashti diz não ter acontecido nos anos 1960, geração que ficou conhecida por se comportar dessa maneira, mas que de repente se tornava real em uma Nova York do século XXI.

Vashti inclusive é a que oferece a melhor visão de quem são aquelas pessoas. Na cena inicial do filme, aparecem as irmãs de CocoRosie andando de bicicleta por terrenos baldios da cidade, onde de repente param a falam coisas que não se pode dizer se são sérias ou não: umas fadas que aparecem todas as noites para cortar o cabelo das meninas. Vashti diz que a genialidade e beleza dessas pessoas é justamente o entrelugar que essas coisas acontecem, nunca se sabe se estão falando sério ou não, se o que dizem é verdade ou não, se realmente acreditam no que dizem ou se estão brincando. O lugar da incerteza e do estranhamento e da não exaditão das coisas é implantado. Ou seja, a música, a arte dessas pessoas são mais ou menos isso mesmo – um estranhamento e uma não certeza do que é possível dizer sobre essas pessoas, sobre a músicas delas. Por isso surge, com o reconhecimento artístico deles um estranhamento do sucesso – não esperavam realmente que tantas pessoas iam realmente gostar daquelas músicas.

Esse entrelugar se transparece para a sexualidade das pessoas, assunto que se mais bem explorado poderia ter deixado o filme melhor. Anthony aquela figura incrivelmente ambígua, a assexualidade do CocoRosie, transparece na sensação corporal que essas músicas apresentam, a música, como diz Devendra no filme, se utiliza do corpo dessas pessoas para ser capitada no ar e retrasformada em música para o público em geral, uma idéia um pouco hippie, transcendental, mas que o diretor do filme consegue deixar muito simpática. Com Basinski  e sua música muito mais intelectualizada não é diferente – o acaso de um encontro que cria aquelas músicas que vão se desintegrando. Basinski inclusive coloca a “desintegração” como componente formador dessas pessoas – uma resposta ao pós-grito de desespero de Cobain que os anos 90 não conseguiram lidar, como fala Anthony.

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Ademais, as cenas de apresentações dos artístas são muito boas. Os shows “esculhambados” de Devendra que o Brasil já pode ver, Vashti tocando na relva, Anthony simpático no palco, fazendo piadas, mas cantando com uma emoção impressionante (como o Brasil também já pode ver), e a criação musical do CocoRosie, os experimentos, as gravações que são dos melhores momentos do filme. É um filme que vale a pena, pela presa da contemporaneidade de tentar entender o presente, o acontecimento recente. É um tanto bonito o filme – e mais uma vez, como em I Need That Record!, uma necessidade por uma idéia de comunidade, do comunitário, vem à tona novamente. Pode ser uma resposta a essa necessidade – uma comunidade ainda por vir.

Ai está a primeira parte do filme. créditos: odisco

[Paulo Cruz]

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