Falso

muse21

Em tempos distantes, a arte que envolvia o disco físico ajudava o ouvinte a entender melhor o conceito da música gravada ali. Hoje, quase tudo chega às nossas mãos virtualmente e nós acabamos montando um conceito individual que pode conter qualquer imagem. Por exemplo: para fornecer o acesso ao link que continha o novo álbum do Muse, “The Resistance” [Warner, 2009], o servidor utilizou uma verficação de palavras. Ironicamente, a palavra pedida era untrue. Na falta de imagens fornecidas pelos próprios músicos, essas seis letras parecem perfeitas para explicar o conteúdo do arquivo.

Se a constrangedora Uprising, um crossover anêmico de Atlas (Battles) e Womanizer (Britney Spears), é a primeira faixa e primeiro single do álbum, constata-se que o Muse nem se preocupa em fornecer prova contrária. Resistance, em seguida, ruma para o lado do metal sinfônico e lembra que tudo pode ficar ainda pior. É o que acontece em Undisclosed Desires, algo que o Usher já fez com muito mais dignidade.

Nesses casos em que bandas como o Muse, donas de uma imensa base de fãs, chegam perto do que há de mais desprezível na música, vai ter sempre alguém para dizer que essa é a década da diversão. A junção de gêneros é obrigatória mas não, necessariamente, criteriosa. Ou seja, não importa se é descartável, desde que funcione numa festinha qualquer. Se você não gosta, você é um grande chato que não entende piadas e não consegue se divertir. Estamos terminando a década vendo pilantragens como Britney Spears, Kelly Clarkson e Muse dividindo glórias com Radiohead, Wilco e Broken Social Scene. Será que a crítica na década passada foi injusta com os Backstreet Boys? Afinal, eles também tinham seus hits infalíveis para pista (Everybody, uma espécie de Thriller moderna, ou Larger Than Life). Para o azar da boy band, a década de 90 não foi a década da diversão…

Voltemos ao mais recente álbum do Muse que, infelizmente, não possui só três faixas. Pela frente ainda restam mais oito, tão ruins quanto as três primeiras. Matthew Bellamy, líder da banda, diz que “The Resistence” tem ênfase inicial no R&B contemporâneo e que dali em diante se torna épico e estranho. Para ser realmente sincero, o vocalista só precisaria tirar o “épico e” da sua frase. United States Of Eurasia é tão antiquada que faz “Day And Age” (do Killers) parecer um experimento moderno. Unnatural Selection (que trocadilho esperto!) rouba o riff de New Born para agradar fãs antigos mas termina mesmo como um inacreditável rip-off do Iron Maiden. Isso não é ecletismo, é esquizofrenia. É, provavelmente, o maior caso de confusão sobre o sentido da palavra desde Luiz Caldas (aquele mesmo, autor de clássicos como Nega do Cabelo Duro, letra que Danilo Gentili daria um braço para escrever. Entre no MySpace e ouça Maldição… é até parecido com Muse).

Bellamy completou sua sentença afirmando que depois de ficar “épico e estranho, o álbum então se encaixaria no gênero música clássica contemporânea”. Desconfio que a idéia que o rapaz tenha de música clássica contemporânea passe por Angra ou pelo Halloween. Porque são essas as bandas que fazem (ou faziam) música parecida com Exogenesis, um enorme pé no saco dividido em três partes. O álbum se encerra com essa deprimente tríade de metal melódico e nem por um segundo o ouvinte é agraciado com alguma sinceridade vinda do trio inglês. E se o nosso senso crítico anda tão atordoado a ponto de bestas-feras dessa estirpe se criarem, é melhor deixar que as máquinas resolvem o problema:

– Repita para mim, HD virtual, o que você acha do novo disco do Muse?

– FALSO.

– Obrigado.

Muse – The Resistance – 00
Ano: 2009
Origem: Inglaterra
Gênero: Rock, Metal Melódico, R&B
IN Picks:
Pra quem gosta de: Queen, Luiz Caldas, Angra

créditos: indienation

[Paulo Cruz]

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